Os conflitos do século XXI transformaram profundamente a forma como os Estados projetam poder e conduzem operações militares. A guerra convencional, baseada em grandes deslocamentos de tropas e ocupação territorial, passou a dividir espaço com operações de inteligência, capacidades cibernéticas, guerra eletrônica e ações conduzidas por forças especiais altamente qualificadas.
Nesse novo ambiente estratégico, a principal pergunta deixou de ser quantos tanques ou quantos soldados um país possui.
A questão passou a ser outra: o Estado é capaz de identificar uma ameaça antes que ela se concretize e responder de forma rápida, coordenada e eficaz?
Nos últimos meses, esse debate ganhou espaço também no Brasil.
Declarações públicas do Presidente da República e do Ministro da Defesa trouxeram ao centro da discussão a necessidade de fortalecimento da Defesa Nacional e da capacidade de dissuasão do País. Independentemente das interpretações políticas que possam ser atribuídas a essas manifestações, elas evidenciam que o tema deixou de ser restrito aos círculos acadêmicos e militares e passou a integrar o debate institucional brasileiro.
Como profissional que atua há mais de três décadas na Base Industrial de Defesa, entendo que essas manifestações oferecem uma oportunidade para discutir uma questão muito mais ampla do que a simples proteção de autoridades.
A verdadeira pergunta é:
O Estado brasileiro possui capacidade para detectar, acompanhar, impedir e neutralizar uma eventual operação limitada conduzida por forças especiais contra objetivos específicos em território nacional?
Essa é uma discussão estratégica, institucional e tecnológica, que merece ser conduzida sob critérios técnicos e distante das paixões políticas.
O contexto internacional e as lições estratégicas
Os acontecimentos recentes na América Latina também contribuíram para ampliar esse debate.
O processo político vivido pela Venezuela após as eleições presidenciais de 2024 produziu intenso questionamento internacional, divergências sobre o reconhecimento do resultado eleitoral por parte de diferentes governos e organismos internacionais, além do agravamento do isolamento diplomático daquele país e da ampliação de sanções por parte de diversos Estados.
Independentemente das diferentes interpretações sobre esse processo, o caso venezuelano passou a ser estudado por analistas de defesa porque demonstrou como crises de legitimidade institucional, tensões diplomáticas e deterioração das relações internacionais podem alterar significativamente o ambiente estratégico de um Estado.
Mais importante do que discutir a política interna venezuelana é compreender a lição estratégica decorrente desse episódio: quando um país passa a enfrentar elevado grau de isolamento internacional, aumenta a preocupação de suas autoridades com hipóteses de pressão externa, inclusive em cenários envolvendo operações especiais ou outras formas de emprego limitado do poder militar.
Esse aspecto ajuda a explicar por que o tema passou a ser tratado publicamente também por autoridades brasileiras.
A guerra mudou
Os conflitos modernos raramente começam com grandes invasões.
Hoje, operações especiais podem buscar objetivos extremamente específicos:
captura de indivíduos;
resgate de pessoas;
neutralização de centros de comando;
sabotagem de infraestrutura crítica;
interrupção de comunicações estratégicas;
obtenção de informações sensíveis;
destruição de capacidades militares selecionadas.
Essas operações normalmente envolvem equipes reduzidas, elevado grau de treinamento, inteligência detalhada, apoio tecnológico e planejamento realizado durante meses.
Em muitos casos, a ação operacional representa apenas a etapa final de um longo processo de coleta de informações.
O verdadeiro campo de batalha é a inteligência
Nenhuma operação especial começa quando o primeiro helicóptero decola. Ela começa muito antes. Satélites. Sensores. Reconhecimento. Monitoramento eletrônico. Análise de padrões. Mapeamento de rotinas. Imagens.Interceptações autorizadas. Inteligência humana.
Tudo isso compõe o chamado ciclo de inteligência. Quem domina esse ciclo normalmente reduz drasticamente o risco operacional. Por essa razão, a principal linha de defesa de um país não é apenas seu armamento.
É sua capacidade de descobrir antecipadamente que uma ameaça está sendo preparada.
O Brasil possui capacidade de resposta?
Essa pergunta exige serenidade. O Brasil possui instituições altamente qualificadas. O Exército Brasileiro mantém unidades de Operações Especiais reconhecidas internacionalmente. A Marinha dispõe de forças especializadas em operações anfíbias. A Força Aérea possui importantes capacidades de mobilidade e apoio. A Polícia Federal acumula significativa experiência em investigação e contraterrorismo. Os órgãos de inteligência desempenham papel fundamental na proteção institucional do Estado.
Não há razão para subestimar a qualidade dos profissionais brasileiros.
O verdadeiro desafio encontra-se em outro ponto. Integração. Interoperabilidade. Comando e controle. Fluxo de inteligência. Velocidade de decisão.
Esses fatores, muito mais do que a quantidade de efetivos, determinam a eficiência da resposta estatal diante de uma ameaça complexa.
Negar o sucesso da operação é mais importante do que retaliar
Em estratégia militar existe uma distinção importante entre duas formas de dissuasão. A primeira consiste na capacidade de punir um agressor. A segunda consiste na capacidade de impedir que ele alcance seu objetivo. Para o Brasil, esta última talvez seja a mais relevante. O objetivo não deve ser construir uma capacidade voltada à confrontação direta com grandes potências militares.
O verdadeiro objetivo estratégico deve ser desenvolver meios capazes de tornar qualquer operação limitada extremamente difícil, arriscada, cara e com baixa probabilidade de sucesso.
Isso depende muito mais da eficiência do sistema nacional de defesa do que da comparação direta entre arsenais militares.
A Base Industrial de Defesa como elemento de soberania
Nenhuma defesa nacional moderna existe sem tecnologia. Radares. Satélites. Sensores. Drones. Comunicações seguras. Criptografia. Guerra eletrônica. Inteligência artificial. Sistemas de comando e controle. Todos esses elementos dependem de investimentos permanentes em pesquisa, desenvolvimento e fortalecimento da Base Industrial de Defesa.
A soberania tecnológica tornou-se um componente inseparável da soberania nacional.
A Defesa Nacional como um sistema
Talvez o maior equívoco seja imaginar que defender um país seja responsabilidade exclusiva das Forças Armadas.
Não é.
A Defesa Nacional constitui um sistema integrado.
Esse sistema envolve:
liderança política;
inteligência estratégica;
diplomacia;
indústria de defesa;
infraestrutura crítica;
comunicações;
logística;
setor energético;
segurança cibernética;
forças policiais;
universidades;
centros de pesquisa;
empresas estratégicas.